The Making Of Biblical Womanhood: uma resenha

Eu conheci o livro por causa da discussão que ele levantou na comunidade evangélica americana no Twitter. Mas o que me interessou nele a ponto de começar a lê-lo foi o fato de já conhecer, de modo geral, as ideias da autora – já tinha ouvido algumas falas da Beth Alisson Barr na Conference of Faith and History. Além disso, por Beth Barr ser historiadora, imaginei que encontraria no livro uma abordagem bem próxima da área que encaminhei minha pesquisa, a história intelectual.


O livro não era exatamente o que eu procurava, mas isto não foi prejudicial à minha leitura. Ao invés de um texto acadêmico para ser apresentado à revisão de pares, o livro é um relato testemunhal, uma narrativa de uma jornada espiritual e intelectual da autora, mostrando como, em conjunto, a experiência pessoal, a exegese bíblica e a pesquisa acadêmica evidenciaram que o complementarismo é um modelo de interpretação bíblica sobre o papel da mulher que está distante da fé cristã, e corresponde mais a padrões culturais localizados que a verdades bíblicas.


Nesse sentido, o livro de Beth Barr me lembrou bastante Feminilidade Radical, de Carolyn McCulley, em que a autora também costura experiência pessoal, exegese bíblica e pesquisa acadêmica – mas para afirmar que o Evangelho (ou melhor, a leitura complementarista do papel da mulher e do Evangelho) oferece uma valorização da mulher que Carolyn não encontrou em sua experiência de ativista feminista.

Ambos os livros não são repletos de notas de rodapé e debate historiográfico, nem contém páginas e páginas de exegese do texto bíblicos nas línguas originais, comparando as possibilidades de tradução, citando normais gramaticais, etc. Os dois são livros sobre como a experiência pessoal e o conhecimento de outros campos dão base para validar ou rejeitar uma determinada interpretação do texto bíblico (e isto também implica que muitas das críticas a um valem para outro). A diferença entre os dois é que Carolyn McCulley tenta oferecer uma alternativa para cristãs feministas ou que flertam com o feminismo, Beth Barr quer denunciar um perigo ignorado ou, pelo menos, subestimado dentro do complementarismo – a validação de abusos. Por isso, para alguns Feminilidade Radical terá um tom mais tranquilo e conciliador, enquanto The Making of Biblical Womanhood terá um tom mais urgente e enérgico.

A autora

Por ter dito acima que Beth Barr coloca no livro muito de sua experiência pessoal, alguém poderia argumentar que todo livro é baseado em experiência do autor (o que é verdade). O que quero dizer por “experiência pessoal” é que, explicitamente, ela coloca no texto sua experiência enquanto professora e esposa de pastor ao lado da experiência de pesquisadora. E porque o livro é uma extensão de posts de blog em que são narradas algumas experiências negativas de Barr dentro do universo complementarista, a quantidade de referências a estas experiências pode parecer apelativa demais para leitores que gostariam que ela fosse “direto ao ponto”, ou que texto fosse escrito num estilo mais próximo das produções acadêmicas.


Também já foi mencionado que Beth Barr mostra sua exegese de textos bíblicos ligados ao papel da mulher, especialmente nos textos paulinos. Porém, ela não constrói uma exegese própria, mas trabalha a partir de uma correlação: considera-se a melhor exegese aquela que faz mais justiça à história do cristianismo e à pesquisa histórica em geral sobre relações de gênero. Neste caso, algumas correlações são boas, outras, mais frágeis. Assim, o mais recomendável é conferir as referências do livro, especialmente Beverly Gaventa e Lucy Peppiatt, que são frequentemente citadas.


Pela ênfase testemunhal do livro, alguns trechos em que Beth Barr poderia avançar na discussão acadêmica tiveram um tratamento que pareceu insuficiente. Um deles, quando é explicado como Paulo estaria reproduzindo uma ideia do contexto romano sobre o silêncio das mulheres no texto de 1 Coríntios 14.33-35, poderia ter o comentário expandido, tanto a nível exegético como da apresentação do contexto social e intelectual do período. O mesmo vale para quando ela explica o contexto do surgimento do complementarismo.


Nada disso, contudo, diminui o ponto forte do livro. A premissa que podemos questionar a interpretação bíblica a partir de elementos para além da exegese é extremamente válida. Esta é uma das maneiras pelas quais se percebe a imposição de nossos padrões culturais ao que o texto bíblico diz. E o tema em questão, “masculinidade e feminilidade bíblica”, precisa passar por esse escrutínio. Afinal, “masculinidade” e “feminilidade” são conceitos que não estão presentes no texto original da Bíblia, como são “justificação” ou “graça”, por exemplo. Desta forma, devemos nos perguntar: quando os conceitos “masculinidade” e “feminilidade” foram criados? Por quem foram criados, e para quê?


Aqui, o livro de Beth Barr traz insights interessantes. Alguns deles valem a pena serem mencionados, como a percepção de uma mudança nos “paradigmas de santidade” entre a Idade Média e a Idade Moderna, em que a Reforma contribuiu para que o ideal de vida santa a ser alcançado pelas mulheres estava no lar e no casamento, como também quando é demonstrado que o Conselho sobre Masculinidade e Feminilidade Bíblica surge numa reação tanto ao feminismo como ao crescimento das mulheres nos postos de trabalho no período após a Segunda Guerra Mundial. Além disso, a constante comparação com a situação das mulheres na Idade Média, que é a área de pesquisa da autora, mostra que as pretensões de precisão histórica do complementarismo não correspondem àquilo que temos das fontes.


The Making of Biblical Womanhood é um livro recomendado por conseguir criticar o complementarismo unindo dois tipos de argumentação: por um lado, temos a trajetória de uma mulher que, pelas experiências negativas no universo complementarista, precisa que sua história seja ouvida; por outro, estas experiências fazem parte de um movimento que a identificar em sua pesquisa acadêmica evidências históricas que o complementarismo não é a única interpretação possível sobre o papel das mulheres à luz da Bíblia, nem foi padrão ao longo da história.

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