Ressurreição: Falcão, Bultmann e a Marvel Existencialista

Updated: Apr 6



Como separar: (a) uma afirmação sobre um evento histórico de (b) o significado filosófico que essa afirmação carrega. Esse foi o projeto de demitologização do teólogo existencialista Rudolf Bultmann. Para ele, afirmações extraordinárias do texto bíblico (por exemplo, a Ressurreição) carregam sentido extraordinário, mas não são, necessariamente, afirmações sobre factualidade histórica. O evento aconteceu mesmo? Impossível saber. O que sabemos é o que o evento simboliza a partir da experiência de quem interpreta o texto e interage com ele. Restaria-nos, portanto, eliminar o símbolo, a afirmação extraordinária, a descrição do milagre, para ficarmos com "o que o milagre quer dizer". Separar (a) a descrição do milagre/mito de (b) o significado filosófico/teológico/ético que o milagre/mito carrega. Isso é demitologização.


Bultmann segue Heidegger em acreditar que a historicidade não importa, já que a existência só acontece dentro da percepção subjetiva. Em outras palavras, pouco importa se a Ressureição, de fato, ocorreu na História - para ele, tudo indica que não. Importa o significado que a Ressurreição carrega quando o intérprete interage com o evento. Ou: a Ressurreição existe quando o ser humano se apropria dela, não quando ela ocorre no Tempo. Existencialismo, portanto.


Para este teólogo alemão, o projeto liberal de determinar pelas ferramentas da Ciência se a Ressurreição ocorreu ou não é uma empreitada fútil. Na epistemologia do liberalismo teológico, a essência é fundamentada na objetividade dos fatos Históricos. O evento só importa se podemos provar que um evento aconteceu, de fato. Para Bultmann, o evento é relevante pelo sentido que o intérprete lhe dá.


Ambos, liberalismo e existencialismo rejeitam a historicidade da Ressurreição, mas por motivos totalmente diferentes e, até mesmo, opostos.


Voltando à Marvel, a frase de Sam Wilson é, nesse sentido, razoavelmente próxima da ideia de Bultmann. O que faz o Capitão América não é seu escudo, não é o uniforme, não é o mito, não é o símbolo. O que constitui o herói é o significado produzido pelas pessoas: seja o significado que Steve Rogers construiu ao ser quem foi e fazer o que fez, seja o significado que as pessoas atribuíram aos feitos do Capitão.


Alguém além de Bucky Barnes viu tudo que o Capitão fez na Segunda Guerra? As pessoas sabem o que é mito ou realidade? O Capitão está mesmo na Lua neste momento? Para Sam, pouco importa. O que realmente tem sentido é que herois sejam construídos com o significado por trás do símbolo e não somente com o símbolo.


Corretos? Nem Bultmann, nem Sam - a meu ver. Jesus não seria capaz de nos ressuscitar dos mortos teologicamente se não tivesse ele mesmo ressuscitado. O sentido teológico da Ressurreição é precisamente esse: a exigência proposicional de que Ele venceu a morte no Tempo, no Espaço e para cada sujeito que se apropriou dela. O significado da Ressurreição, sua existência, nos próprios termos de Heidegger, é a rejeição do projeto Heideggeriano. Somos o que somos neste mundo não por perceber a morte, mas por enxergarmos vida "futural". Dasein é olhar para o futuro e ver Tudo. Adeus, Das Nichts.


Capitão não teria nenhuma chance contra Thanos sem seu escudo ou sem o Mjolnir, históricos e factuais. Evidentemente o evento histórico importa, mesmo que não tenhamos acesso a ele ou não sejamos capazes de descrevê-lo em suas minúcias. Seria meio universo de mortos, caso contrário.


Uma verdade, entretanto, fica. Sexta-feira Tenebrosa, Domingo da Paixão não podem ser apenas símbolos que qualquer um carrega, que celebramos de qualquer jeito. Não podem ser apenas mais uma data no seu calendário. Não podem parar numa disputa fútil sobre sua historicidade. Importa o que significaram para as pessoas ao longo da História, a começar pelas testemunhas oculares que apropriaram-se do evento e afirmaram: "Verdadeiramente, Ele ressuscitou".


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