Por que precisamos das Ciências Humanas?

Updated: Nov 24


Eu sou estudante de História e tem uma frase que eu sempre vi na internet estampada em camisas ou usada como um tipo de lema da nossa área: "A função do historiador é lembrar à sociedade daquilo que ela quer esquecer". Não sei de qual livro, artigo ou entrevista ela vem, mas é do grande Peter Burke.


De fato, isso é verdade. A História demonstra como as estruturas vieram a ser como são. A Sociologia, Antropologia analisam as características e o modo de ser dessas estruturas. Encaixamos tudo em seus contextos, entendemos as suas origens e buscamos analisar como a sociedade reproduz tudo isso de maneira crítica, obviamente.


Quando falo de ser crítico, não digo que é um projeto de ataque ou difamação. Na verdade, uma análise crítica é basicamente fazer perguntas para uma fonte. Queremos entender como as coisas são como são, como vieram a ser e como funcionam. Por isso questionamos, por isso temos a fama de sermos "militantes" ou pessoas que gerem um projeto de destruição de valores. Não é bem assim! O que um profissional das Ciências Humanas faz é analisar, compreender. Ele não é neutro, mas ele não está gerindo um projeto para acabar com sua fé ou algo do tipo.


É agora que entro no meu ponto: a igreja precisa dessas pessoas? Ela não deve ficar apenas com a Bíblia e a pregação da Palavra? Eu digo que a igreja precisa, e com urgência. Não precisamos de manuais de História da Igreja, apenas. Precisamos desses irmãos e irmãs que estão fazendo análise crítica, acadêmica. Eles estão nas fileiras de nossas comunidades de fé e nem imaginamos o quanto o trabalho deles é importante.


Nossas crenças possuem contexto


Nós somos acostumados a dizer que cremos na Bíblia, que nossas crenças são unicamente retiradas de lá. Eu tendo a concordar com isso em partes, mas ao estudar História, percebemos que elas são frutos de processos bem turbulentos e não caíram do céu para nós. Nem a Bíblia caiu do céu! Até ela é fruto de seu contexto, por isso fazemos exegese.


O que quero dizer com isso? Entender que nossas crenças possuem contexto social, histórico nos ajudam a entender o que cremos e o motivo de crermos naquilo. Nos ajuda a sermos críticos com o uso de algumas doutrinas e teologias, nos faz repensar várias práticas da igreja. É o meu segundo ponto.


Vamos fugir do "eles não eram crentes de verdade"


Precisamos fugir dos simplismos quando nos deparamos com as atrocidades que os cristãos cometeram e ainda cometem. Dizer simplesmente que eles não eram cristãos de verdade não resolve o problema dos cristãos que acreditavam que escravizar negros era bíblico. Grandes nomes reverenciados pelos cristãos eram escravistas. Isso não resolve o problema da misoginia, do racismo, da homofobia em nossas igrejas.


Não existe solução fácil para isso, mas sair desse tipo de solução simplista ajuda muito. Começar a compreender as complexidades do passado, de como nos apropriamos dele é um bom caminho. Procure os historiadores da sua igreja! Eles irão te ajudar a lidar melhor com o nosso passado. Se você não conhece nenhum, entre no canal do grupo de estudos de História da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência. Você vai aprender bastante.


Os cristãos que são profissionais de Ciências Humanas não querem destruir a sua fé


Recentemente eu li um texto escrito por um autor batista reformado sobre alguns livros escritos por historiadores e sociólogos evangélicos que criticam a religião evangélica. Livros como Jesus & John Wayne de Kristin Du Mez, The Making Of Biblical Womanhood de Beth Allison Barr e The Color Of Compromise de Jemar Tisby falam sobre como o patriarcado, ideologias de direita e o racismo fizeram e fazem parte da religião evangélica. O autor diz que esses autores estão em um projeto de desconstrução da fé, da Bíblia e incita seus leitores a lê-los mas desconfiar de suas análises.


Essas pessoas estão em um projeto de destruição da nossa fé? De modo algum! Somos irmãos e irmãs em Cristo. Jemar, Beth e Kristin querem trazer luz aos nossos problemas falando como pessoas de dentro. Eles estão comprometidos com as verdades que todo cristão evangélico também está. Seus textos mostram que as coisas nem sempre foram como são e que ainda permanecem: racismo, homofobia, misoginia, etc.


Kristin diz que:

Compreender que crenças possuem uma história não impede um compromisso com verdades fora da história, nem impede os crentes de trazerem textos sagrados e percepções teológicas para influenciar suas decisões pessoais e visões políticas. Mas leva os crentes a considerar como forças históricas e lealdades culturais podem ter moldado suas próprias convicções profundamente arraigadas, até mesmo de maneiras que vão contra os ensinos básicos da sua fé. [1]

Estamos aqui, como estudiosos de Ciências Humanas para auxiliar as nossas comunidades de fé no entendimento de sua história, seu contexto e a pensarem sobre como muitas coisas "bíblicas" não são bíblicas. Não queremos destruir a nossa fé, queremos fortalecê-la.


Pastores e acadêmicos devem andar juntos


Por fim, acho que precisamos de um trabalho que leve em conta as limitações do trabalho pastoral e do trabalho acadêmico. Os pastores são formados para ensinar a Bíblia, aconselhar, conduzir o rebanho de Cristo rumo a estatura de humanidade perfeita que o Salvador nos ensinou. Os acadêmicos estão escrevendo artigos, fazendo pesquisa e discutindo com seus pares.


Eu creio que não temos visto muito disso aqui no Brasil. Vivemos achando que ser acadêmico é a pior coisa do mundo, que fazer Ciências Sociais ou História significa largar a fé. Colocamos uma função de "sabe tudo" no pastor, que ele não tem. E nisso, acabamos deixando vários irmãos e irmãs cheios de potencial no banco, sobrecarregamos o pastor. Não é uma situação boa, não é?


O trabalho precisa ser conjunto. Precisamos de pastores acadêmicos? Precisamos! Precisamos de acadêmicos ensinando nas igrejas! Sim! . Já os acadêmicos precisam ser pastoreados, traduzir esse conhecimento mais denso para as suas igrejas. Eles não são monstros, mas pessoas cheias de conhecimento para edificar o corpo de Cristo.


Dito isso, encerro meu texto. Ele é mais reflexivo que acadêmico, mas a discussão não se encerra aqui. Em breve teremos livros, artigos e muitas reflexões sobre isso. Fiquem atentos!


Notas


[1} DU MEZ, Kristin Kobes. O que cremos acerca da História?. Link de acesso: https://link.medium.com/ieYgS0HLolb.

144 views0 comments

Recent Posts

See All

Hagar