O movimento complementarista americano e o acobertamento de abusos




Discussões sobre o complementarismo costumam ressurgir quando casos de abusos cometidos por pastores – complementaristas – vêm à tona. Seriam tantos abusos consequências dessa teologia?


Dado que essa doutrina é preciosa para alguns irmãos, ouvir tal afirmação pode ser profundamente doloroso. “Como a ordem perfeita estabelecida por Deus pode causar abuso e sofrimento?”, se perguntam. “Quem erra são os homens, são algumas exceções, não se pode julgar uma teologia por esses casos pontuais. Afinal, o complementarismo implica que o homem deve proteger a mulher!”, podemos ouvir.


Eu acredito que essa discussão está indo por um lado totalmente equivocado, e é isto que quero pontuar aqui. Quando comecei a pesquisar o assunto em 2021, constatei algumas coisas importantes.


Primeiro: complementarismo e igualitarismo, embora se expressem em doutrinas, são, antes de tudo, movimentos. De acordo com Mary Kassian em um texto do TCG, o termo "complementarismo" teria apenas 35 anos¹. Kassian provavelmente está se referindo à fundação do Conselho de Masculinidade e Feminilidade Bíblica (CBMW) – do qual ela faz parte – por Piper e Grudem em 1987. O Conselho de Igualdade Bíblica (CBE) foi fundado no mesmo período.


Assim, o complementarismo e igualitarismo não são doutrinas que caíram do céu, embora se expressem em doutrinas. São movimentos com líderes, textos-base (os primeiros livros indicados são de Piper e Grudem), eventos. O CBMW e o CBE surgiram após uma série de debates na igreja que foram impulsionados pelas questões levantadas na segunda onda do feminismo.


Como já expressei outras vezes em meus comentários, os complementaristas também se dividem entre si, entre aqueles que permitem a pregação e o ensino feminino ou não. Você pode encontrar longos debates na internet. Piper e Grudem, que fundaram o CBMW, não permitem. Piper vai ainda mais longe e acredita que a mulher não deve liderar o homem em nenhum contexto, como chefe de empresa ou política.


O grande problema do Conselho Bíblico de Masculinidade e Feminilidade é que ele já esteve associado a pessoas controversas (antes de seus escândalos). No quadro de diretores² (!) já esteve C. J. Mahaney, da Sovereign Grace, envolvido em um processo de acobertamento de abuso infantil³.


No "Board of References" do CBMW⁴, já tivemos Paige Patterson, que foi afastado de seu posto de presidente da Southwestern Baptist Theological Seminary por não ter lidado apropriadamente com casos de abuso:

"uma ex-aluna de pós-graduação do SEBTS disse ao The Washington Post que depois que ela denunciou seu estupro a Patterson e colegas funcionários do seminário em 2003, eles não notificaram as autoridades e o ex-presidente a encorajou a perdoar o agressor”⁵.

Outros escândalos de denúncia contra Patterson surgiram. É interessante encontrar um trecho em um artigo do jornal da CBMW de 2007 (anterior aos escândalos) que louva a chegada de Patterson no Seminário como um "notável complementarista”.


John MacArthur também fazia parte do quadro de referências do CBMW. Recentemente, veio à tona o caso de Eileen Gray, cujos filhos eram frequentemente submetidos a espancamentos (tão horríveis que não sou capaz de ler o artigo sem querer chorar). Eileen fazia parte da igreja de MacArthur e, por se recusar a voltar ao marido, foi envergonhada e “excomungada” da igreja por MacArthur. Mais tarde, Eileen também descobriu que o marido praticara abuso sexual. Hoje, ele está preso⁶.


Eileen também afirma que Carey Hardy⁶, um ex-pastor associado da igreja e assistente pessoal de John MacArthur, disse a ela que ela precisava ser um modelo para os filhos em como “sofrer por Jesus” suportando o abuso do marido. A pedido da igreja, Albert Mohler – que hoje faz parte do conselho do CBMW! – escreveu um artigo alegando que o pastor Carey Hardy não era obrigado a denunciar o marido de Eileen devido à liberdade religiosa. Hoje, ele afirma que não deveria ter procedido dessa maneira.


E embora sem comparações aos casos mencionados assim, vale lembrar que entre os membros do conselho do CBMW já esteve Joshua Harris, ex-pastor ligado ao movimento de pureza que posteriormente abandonou a fé. Em 2019, Joshua declarou:

“Vivi em arrependimento nos últimos anos – me arrependendo de minha justiça própria, minha abordagem da vida baseada no medo, o ensino de meus livros, minha visão das mulheres na igreja e minha abordagem de paternidade, apenas para citar alguns exemplos”⁷.

Joshua Harris foi discípulo de C. J. Mahaney (o primeiro citado neste texto). Juntos, ambos saíram do conselho do The Gospel Coalition após o começo do escândalo de denúncia envolvendo Mahaney⁸.


Não estou dizendo que todas pessoas ligadas ao movimento do CBMW são assim, de forma alguma. Mas existe, sim, um sistema de silenciamento e não-denúncia que se propaga nesse meio, ainda que de maneira inconsciente, e precisa ser destruída por seus próprios membros! De acordo com Scot McKnight e Laura Barinsser:


“(...) é muito fácil apontar o autor do crime como bode expiatório e ignorar que esses comportamentos normalmente não acontecem no vácuo. Em vez disso, eles expressam a cultura de uma instituição. A tragédia dessas e de muitas outras histórias é que, em vez de se concentrar nos feridos, nas vítimas e nos sobreviventes de abuso, essas organizações se concentraram em si mesmas, em sua liderança, em seus próprios interesses. Eles protegeram os culpados, esconderam a responsabilidade e silenciaram os feridos. E isso apenas arranha a superfície do problema.”⁹

Por isso, eu humildemente acredito que a melhor maneira de irmãos complementaristas brasileiros trabalharem é longe desse esquisitíssimo movimento americano, produzindo seus próprios materiais ou aproveitando materiais de complementaristas estreitos, como Tim Keller. Lembrando que é um movimento de menos de 40 anos, e suas doutrinas não dependem dele. O próprio nome complementarismo foi pensadamente escolhido para abandonar termos como “visão tradicional” ou “hierárquica” utilizados antes. Além disso, o movimento tem cometido um grande erro de colocar o complementarismo como uma questão primária na igreja, como se quem o negasse estivesse fora da “ortodoxia”.


Também cabe ressaltar que, quando novos casos de abusos surgem, vale muito mais a pena praticar o lamento e posicionar-se para que essas falhas jamais aconteçam em solo brasileiro (e não acontecem?) do que ficar insistindo em bater no peito e dizendo que “isso não representa o complementarismo”. Posicionar-se em defesa dos que choram é a melhor resposta que você pode dar, especialmente ao ler a notícia de uma criança que apanhou tanto do pai até ficar mancando, e o pai foi protegido pela igreja.




Notas


(1) https://www.thegospelcoalition.org/article/complementarianism-for-dummies/


(2) https://grbc.net/wp-content/uploads/2015/09/The-Danvers-Statement-on-Biblical-Manhood-and-Womanhood.pdf


(3) https://www.christianitytoday.com/news/2012/october/lawsuit-charges-c-j-mahaney-sovereign-grace-ministries.html


(4) http://cbmw.org/wp-content/uploads/2013/05/12-2.pdf, Páginas 2 e 10.


(5) https://www.christianitytoday.com/news/2018/may/paige-patterson-fired-southwestern-baptist-seminary-sbc.html


(6) https://julieroys.com/macarthur-shamed-excommunicated-mother-take-back-child-abuser/


(7) https://www.theguardian.com/books/booksblog/2019/jul/30/inside-christian-purity-guides-joshua-harris-mike-pence-rule


(8) https://www.wthrockmorton.com/2014/05/18/joshua-harris-and-c-j-mahaney-no-longer-listed-as-gospel-coalition-council-members


(9) https://www.amazon.com.br/Church-Called-Tov-Goodness-Promotes/dp/1496446003


Extra: https://cbmw.org/wp-content/uploads/2014/05/JMBW-19.1-Spring-2014_Complete.pdf




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