Jesus, justiça e papéis de gênero: uma resenha

O livro de Kathy Keller “Jesus, Justiça e Papéis de Gênero: mulheres no ministério” (Thomas Nelson Brasil, 2019) tem um grande desafio: trazer uma visão bíblica e tradicional sobre os papéis da mulher na sociedade e na igreja. Em 80 páginas a autora procura ser profunda em seus argumentos, fiel às Escrituras como palavra de Deus autoritativa e procura responder objeções contemporâneas a visão tradicional sobre a mulher e seu ministério na igreja.


A esposa do pastor e escritor best-seller Tim Keller inicia a primeira parte do livro chamada “Imperativos hermenêuticos” traçando sua visão em relação à leitura das Escrituras, o reconhecimento delas como palavra inspirada e infalível do próprio Deus. A partir disso, ela assume os pressupostos que vai usar para interpretar os textos bíblicos e fazer as aplicações: aquilo que é claro nas Escrituras deve interpretar o que é nebuloso e todo texto deve ser interpretado à luz do seu contexto histórico, social e cultural.


Os capítulos que se seguem tratam de dois textos que aparentemente proíbem o ministério das mulheres: 1 Coríntios 14: 33b-38 e 1 Timóteo 2:11-12. As duas passagens têm em comum a recomendação do silêncio para as mulheres e a proibição do ensino. Com a ajuda do contexto histórico, cultural e também do próprio texto, a autora demonstra que o ensino feminino não é proibido e sim que existe um tipo de ensino que é reservado para os presbíteros de uma congregação: o ensino autoritativo. Em resumo, as mulheres estão vetadas da ordenação ministerial mas não do ensino em si.


Obviamente, questionamentos surgem como “Devemos obedecer a um texto antigo?” ou “Por que Deus faz essa divisão?”. Nesse momento temos duas respostas: sim e não sei. Primeiro, ela explica o sim respondendo a objeções que surgem: a suposta misoginia de Paulo, a falta de clareza da Escritura sobre o tema, a aplicação apenas para a igreja primitiva e também a ideia de que esses princípios são mandamentos ultrapassados e desnecessários. Kathy defende sua visão apontando cada lacuna das objeções que se levantam.


A parte 2 do livro, intitulada “Jornadas pessoais” é a resposta para o “não sei”. Kathy aplica os princípios bíblicos expostos anteriormente demonstrando que as mulheres devem ter incentivo para exercerem seus dons no ambiente eclesiástico. Ela sabe dos problemas envolvendo o machismo, regras extrabíblicas criadas para proibir o ministério feminino e repudia isso totalmente. Toda a argumentação se concentra no ambiente de igreja, ou seja, para a autora não há proibição bíblica para que mulheres exerçam papel de líderes na sociedade ou algo do tipo.


A autora encerra o livro mostrando que ordenação feminina não é uma questão de justiça e que a verdadeira justiça é encontrada em Cristo. Tanto homens quanto mulheres encontraram verdadeira satisfação em seus papéis ao olharem para o exemplo de Jesus. Só encontrarão segurança e justiça ao encarnarem o exemplo de serviço que Jesus exerceu em todo o seu ministério.


Em inglês, este pequeno exemplar faz parte de uma série de introdução às visões evangélicas sobre o papel das mulheres na Bíblia. Mas nesse livro em específico, a autora não cita muito os evangélicos que segue os mesmos princípios de interpretação bíblica mas que são pró ordenação feminina, o que é um ponto negativo. Existe até menção, mas não existe um diálogo.


Para os leitores que estão procurando uma boa base argumentativa para o que se chama de complementarismo, é a melhor introdução. É um livro conciso, claro e pastoral. A leitura é mais do que recomendada.


67 views0 comments

Recent Posts

See All