Eu e a Bíblia com Silvana Moreira


Hoje continuaremos com a nossa série de entrevistas sobre a relação do cristão com a Bíblia. A convidada de hoje é Silvana Moreira.


Médica formada pela UFRJ, geriatra, membro da Academia Latino Americana de Medicina del Adulto Mayor, professora de Clinica Médica da UFRJ Macaé. Casada com Rogério Moreira Júnior, juntos são colaboradores voluntários do Ministério Bibotalk.com e congregam na Igreja em Florianópolis.


1. Como se deu o seu encontro com Cristo?


Sou filha de pais cristãos, então digamos que isso facilitou um pouco as coisas. Nossa vida social se resumia aos encontros na igreja local, o que me fazia sempre estar em contato com o Evangelho e suas repercussões. Mas eu sempre penso que é fundamental haver uma experiência de encontro com Cristo, não basta simplesmente dizer que “quando eu vi Ele estava aqui fazia um tempo e eu já estava acostumada”.


Eu era uma criança muito curiosa e já tinha uma relação de leitura com a Bíblia maior que a média, mas me recordo que, aos 8 anos de idade, estava num domingo à noite e o Pr Elizeu Roque pregou sobre a morte de Jesus Cristo na Cruz por meus pecados. Foi quando eu entendi que era por minha causa que Ele havia morrido. Realizei o conceito de que eu era pecadora e precisava ser resgatada. E quando vi, estava lá na frente na hora do apelo (é, naquele tempo tinha que encarar o apelo e a cara da congregação). Foi nesse momento em que me converti a Cristo, o recebendo como meu único e suficiente salvador. No final daquele ano, fui batizada nas águas (bastante água, diga-se de passagem).


2. Como se deu sua relação com a Bíblia no início da sua caminhada cristã?


Aprendi a ler aos 4 anos. Eu era voraz. Minha mãe me colocou na 1ª série antes dos 06 anos porque não aguentou minha tagarelice e curiosidade (tentou me ensinar em casa e desistiu – ela diz com estas palavras). Então tudo que estava à minha frente eu lia. Era um perigo.

Duas coisas me fizeram colocar a Bíblia no repertório de leitura. A primeira que ganhei uma Bíblia Revista e Corrigida, tamanho pequeno, de presente, aquela bíblia que usei para ir à igreja até que caísse a capa. Eu lia o texto e pegava o dicionário de Língua Portuguesa para o que eu não entendia. Gostava muito das histórias, ao ponto de ficar fazendo esquemas e fluxogramas de canetinha em caderno para entender coisas que hoje muita gente sente nojinho ao ler: genealogias, listas e linhas temporais (reis de Israel e Judá, por exemplo). Eu ficava horas fazendo isso, colorindo, ainda tenho alguns guardados aqui em casa. A segunda coisa foi a presença em minha casa de uma coleção de livros, de 10 volumes, chamada “As mais belas histórias da Bíblia”, em brochura e capa dura, com muitas ilustrações e histórias selecionadas de Gênesis a Apocalipse, da Casa Publicadora Brasileira (ligada à Igreja Adventista do Sétimo Dia). Apesar de ter uma estética visual bem anglo-saxã, essa coleção é excelente, pois traz as histórias ilustradas numa linguagem para crianças. Digamos que este era o comentário bíblico que me ajudava a entender a minha bíblia em linguagem complicada. Como eu sofria de insônia, passava horas lendo ambos os livros. Considero-me apaixonada pelo texto bíblico desde sempre, para mim é natural ler o texto, criar intimidade com ele, discutir com meus pares e perguntar aos expertos que conheço. Sempre fui defensora da Escola Bíblica porque cresci a frequentando e lá eu podia discutir e perguntar o que li dele durante a semana. Meus pastores e professores sempre topavam parar e responder ao que eu perguntava. Enfim, tive contato precoce, era meio autodidata até certa altura na era pré-internet, e tinha ainda o ensino na igreja, onde eu procurava ajuda para dúvidas. Depois da conversão, passei a ler com mais atenção ao Plano de Salvação.


3. O que te levou a querer estudar as Escrituras academicamente?


Houve um momento em que as dúvidas se tornaram mais complexas, abstratas, e percebi também a pluralidade do pensamento teológico, as diversas correntes de interpretação do texto bíblico, além do papel da Tradição como fio condutor dessa interpretação. Comecei a verificar a importância de compreender o que era o estado-da-arte no pensamento teológico, o que é o núcleo duro defensável a todo custo, e as perguntas para as quais ainda estamos buscando resposta. Como eu sempre fiz muitas perguntas, um amigo seminarista me sugeriu a busca por um aprofundamento mais formal, e o contato com os podcasts que faziam divulgação teológica.


4. Quais são as dificuldades que você enxerga ao tratar da leitura e estudo da Bíblia na igreja?


No período em que fui líder de Escola Bíblica Dominical, percebi algumas coisas interessantes e em comum, mesmo em igrejas diferentes. Convivendo com pessoas de diferentes igrejas em redes sociais, vi que é algo disseminado em nosso contexto. Faltam pessoas com paixão mínima pelo estudo da Escritura, dentro das congregações. E a modernização da estrutura eclesiástica em muitos lugares não preservou a busca por um estudo bíblico suficientemente aprofundado, atualizado e aplicável. Muitas vezes o labor teológico é substituído por uma tratamento idolátrico da Bíblia, como se ela fosse um Tesseract a ser tutelado, não um texto sagrado a ser estudado. Outras vezes, a Bíblia é usada como uma ferramenta de provimento de bem-estar, não um objeto de estudo a fim de se aprofundar no conhecimento de nossa fé. Um exemplo disso são as lideranças evitarem o estudo de trechos considerados “sensíveis”, no ambiente de Escola Bíblica. O próprio momento de ensino da Bíblia em grupos menores tem sido abolido e trocado por estudos mais focados em experiências pessoais, devocionais, leituras rasas e focadas em bem estar pessoal. Deixamos de servir a Deus e aos irmãos enquanto estudamos a Palavra, e passamos a colocar esse Tesseract (arma poderosa) a serviço de nosso conforto e bem estar enquanto prova nossas convicções pessoais. O irmão Ademar, semianalfabeto lá da igreja onde fui criada e me converti, tinha mais conhecimento de exegese e hermenêutica bíblica, do que os universitários e profissionais liberais que frequentam a igreja hoje. E o conhecimento dele tinha como fonte a escola bíblica e a busca por uma leitura sob a autoridade do Espírito. Um dos grandes resultados disso é o grande volume de pessoas demandando conteúdo de estudo bíblico via internet, e a profusão de canais de YouTube e Instagram que, no lugar de trazer à baila o que estudamos em nossas igrejas locais, oferecem aquilo que a igreja local abandonou enquanto missão, um substituto problemático.


5. Quais são as soluções que você daria para essas dificuldades?


O estudo saudável da Bíblia na igreja local precisa: 1) Ser planejado, baseado nas necessidades do grupo local, transversal e longitudinal. Um plano de estudos da Bíblia precisa ser formulado e estimulado pela liderança, visando inculcar no crente a paixão tanto pelo estudo coletivo quanto pela leitura devocional da Bíblia, como parte de sua disciplina diária. 2) Ser inclusivo, permitindo que todo crente frequentador tenha acesso aos ambientes de ensino coletivos, e também tenha ferramentas para crescer no estudo individual. Isso esbarra no desafio da escolaridade, gostos e estilos de leitura, e exige ferramental que se adapte às necessidades. Um exemplo de ferramenta é a troca do ambiente de ensino por faixa etária para o de grupos de interesses. 3) Ser democrático, amplo, trocando-se a visão centralizada no ensino por parte do pastor no púlpito de domingo, e alcançando os interessados em se aprofundar na Escritura de forma diferenciada, dando oportunidades a todos.


6. Existem leituras externas à Bíblia que te ajudaram, te marcaram em sua trajetória e que você poderia recomendar?


Meu pastor local me deu para leitura A Era dos Mártires, de Justo L. González. Penso que foi o primeiro livro teológico mais acadêmico que li. O que de graça recebi, de graça dou...

Um dos últimos livros que utilizei em estudos foi o tradicional Introdução ao Antigo Testamento, de Lasor. Ultimamente tenho focado mais em literatura devocional, mas há alguns títulos recentes que precisam ser lidos por todo brasileiro que queira estudar melhor o texto bíblico em 2021: A dupla Os outros da Bíblia e Aqueles da Bíblia de André Reinke, E Deus falou a língua dos homens, de Paulo Won, são alguns desses exemplos.

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