Eu e a Bíblia com Luísa do Amaral

Updated: Jun 23



Hoje iniciamos a nossa série de entrevistas sobre a relação do cristão com a Bíblia. A nossa primeira convidada é Luísa do Amaral.

Luísa do Amaral.

Luísa tem 26 anos, é formada em Arquitetura, trabalha como professora de Inglês e pesquisa os processos de formação de comunidades digitais. Faz parte da Igreja Batista do Amor em Uberlândia e é uma das líderes do Ministério de Intercessão Pray Mission. No entanto, ela usa suas redes sociais públicas única e exclusivamente para falar de K-pop.







1. Como se deu o seu encontro com Cristo?


Meu primeiro encontro com Cristo foi aos 6 anos, em 2001, em um retiro de crianças da igreja na qual eu nasci, durante uma ministração de “Nos Braços do Pai”.


2. Como se deu sua relação com a Bíblia no início da sua caminhada cristã?


A Bíblia esteve comigo minha vida inteira (literalmente, pois ganhei a primeira de presente quando nasci, uma Almeida grande de capa de couro branca). Apesar disso, eu não gostava muito de lê-la, e demorei muitos anos pra gostar da Bíblia como gostava de outros livros (porque eu era uma criança que lia muito. Isso frustrava meus pais um pouquinho, que chegaram a me fazer copiar o livro inteiro de Provérbios como castigo por causa de algo que eu havia feito. Inteira, só fui lê-la de fato aos 16. Apesar disso, a primeira vez que eu me lembro de crer que Deus estava falando comigo enquanto eu lia foi aos 12.


3. O que te levou a querer estudar as Escrituras?


Em 2015, aos 20, eu me mudei para a Inglaterra, e quis comprar uma Bíblia em inglês. Um amigo da igreja recomendou a ESV. Foi o material de estudo da ESV que mudou tudo pra mim. Até aquele ponto, eu já tinha desenvolvido um senso de responsabilidade em relação à Palavra, mas foi depois da ESV que eu comecei a amá-la de fato.


4. Quais são as dificuldades que você enxerga ao tratar da leitura e estudo da Bíblia na igreja? Quais são as soluções que você daria para essas dificuldades?


Minha área de estudo é em convivência e formação de comunidades digitais, então vou focar num problema que eu vejo nesse tipo de contexto. A gente vive um momento muito esquisito, né? Aquilo que o Alister McGrath chama de “ideia perigosa do Cristianismo” parece que atinge intensidade máxima nesse contexto de velocidade e intensidade da produção de informação. Todo mundo pode falar o que quiser e potencialmente ser ouvido por qualquer pessoa no mundo, e isso alterou demais muito da forma como mesmo o povo cristão “consome” e “compartilha” o conhecimento da Palavra - sua tia-avó pode não ter Twitter, mas ela provavelmente manda e recebe versículos no WhatsApp e assiste pregações no Youtube. Principalmente entre jovens em redes como Instagram ou Twitter, fomenta-se uma cultura de criação de conteúdo digital com um propósito quase que de “branding” e plataformização disfarçado de “espalhar o Evangelho” e tira da jogada o crescimento pessoal em toda sua complexidade e transforma em uma concurso de popularidade e estética da espiritualidade.


Observando o quão rapidamente as coisas têm mudado, como os “nichos” digitais foram se tornando mainstream, sem contar os efeitos da pandemia, é claro, não é que toda igreja seja dessa forma, mas a gente precisa muito focar nos próximos 3-4 anos em trazer nossa vida de devoção e leitura pro secreto, pra comunidade, para edificação pessoal. É muito fácil confundir “fazer de todo o coração” e “brilhar nossa luz diante dos homens” com os parâmetros insanos de performance e estética do nosso tempo. Na internet, a intensidade sempre direciona as coisas para os extremos - radicalização, simplificação, superficialidade, e pra arrogância como forma de defesa em redes onde o confronto é facilitado. Tem tempo e lugar pra tudo e eu pessoalmente tô esgotada do Areópago.


O que não quer dizer claro que eu concorde com pastores que demonizam o uso de qualquer rede (o que ainda existe aos montes), mas também não defendo aqueles que apoiam uma visão da internet como ministério ou do criar e compartilhar conteúdo como missão.


5. Existem leituras externas à Bíblia que te ajudaram, te marcaram em sua trajetória e que você poderia recomendar?


Uma leitura muito importante pra mim foi “O Peso e a Graça” da Simone Weil, que li em 2018. Eu encontrei a Simone por acaso, enquanto estudava sobre o irmão dela (o matemático André Weil) e foi muito proveitosa porque trouxe um contraponto às várias coisas que eu havia conhecido até então. Uma coisa sobre o tempo em que nós vivemos é que nós temos noção do mundo inteiro mas não conhecemos o mundo inteiro. Eu penso então que seja importante tomar conhecimento de diversas experiências cristãs como forma de “dar conta” na nossa caminhada da carga de informação global que recebemos de outras fontes.



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