Eu e a Bíblia com Igor Sabino


Hoje continuaremos com a nossa série de entrevistas sobre a relação do cristão com a Bíblia. O nosso convidado de hoje é o querido Igor Sabino.


Igor Sabino é doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco, mestre e bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. É presidente do chapter do Philos Project no Brasil e autor do livro "Por Amor aos Patriarcas: reflexões brasileiras sobre antissemitismo e sionismo cristãos".


Igor também coordena a versão em português do site The Biblical Mind (A Mentalidade Bíblica).



1. Como se deu o seu encontro com Cristo?


Eu não lembro ao certo. Não tenho nenhuma experiência de uma “data de conversão”. Eu nasci em um lar cristão e ainda criança fui apresentado ao chamado “plano de salvação”. Entendi que era pecador e precisava da graça de Deus. Apesar de meus pais serem pentecostais, eles frequentam uma igreja presbiteriana. Então, fui batizado ainda bebê. Assim, aos 12 anos decidi fazer profissão de fé. Acho que foi nesse período que tive uma compreensão mais clara do Evangelho.


2. Como se deu sua relação com a Bíblia no início da sua caminhada cristã?


Eu aprendi a amar a Bíblia muito cedo. Minha mãe não gostava de literatura fantástica e por isso costumava ler muito as histórias do Antigo Testamento para mim. Eu só vim conhecer os contos dos Irmãos Green, por exemplo, por volta dos 10 anos. Nem preciso dizer que Harry Potter nunca entrou na minha casa. Como na época não havia internet e eu não tinha muitos livros, mas amava ler, lia muito a Bíblia. Gostava principalmente de Gênesis, Êxodo, Juízes, 1 Samuel... Hoje eu sei que esses livros contém muita coisa imprópria para uma criança, mas eu lia como se fossem histórias de ação e aventura. Isso despertou em mim um grande interesse pelo Oriente Médio e pelo Judaísmo, algo que definiria bastante a minha vocação no futuro. Eu lia aquelas histórias e cria que elas eram verdadeiras e literais pelo fato de a Bíblia ser a palavra de Deus. Então, me questionava: Onde vive hoje esse povo de Israel? Quem são os filisteus? Meu sonho era ser arqueólogo e, antes de sonhar em conhecer a Disney, o que eu queria mesmo era conhecer o Egito para visitar as pirâmides. Acabei virando cientista político, mas realizei vários desses sonhos de criança!


3. O que te levou a querer estudar as Escrituras?


O principal objetivo, claro, era conhecer a Deus. Mas, confesso, havia outros motivos também. Quando eu era criança, havia a curiosidade. O fascínio infantil que muitas crianças têm pelo mundo do Percy Jackson ou do Harry Potter, eu tinha pelo mundo do Antigo Testamento. Eu assistia o filme “O Príncipe do Egito”, da DreamWorks e ficava horas imaginando como tinha sido os milagres do Êxodo. Depois, principalmente quando entrei na faculdade, estudar a Bíblia se tornou meio que uma necessidade, sobretudo para ser capaz de responder alguns dilemas éticos e morais que passei a enfrentar quando entrei na graduação em Relações Internacionais. Questões polêmicas como o envolvimento cristão com a política, a visão bíblica sobre guerras e imigração, o conflito Israel-Palestina... Tudo isso me fez ir além do conhecimento que eu havia recebido da minha mãe e da escola dominical. Eu precisei me aprofundar em várias questões teológicas. E, sinceramente, foi uma bênção. Passei por muitas crises, mas hoje tenho uma fé muito mais sólida e devo a essas circunstâncias.


4. Quais são as dificuldades que você enxerga ao tratar da leitura e estudo da Bíblia na igreja?


Acho que falta muito conhecimento sobre o contexto histórico e cultural em que a Bíblia foi escrita e isso leva a muitos problemas teológicos. Nos últimos anos tivemos um grande avanço da teologia reformada no Brasil e acho que foi algo positivo, eu mesmo me beneficiei muito. Porém, tenho a impressão hoje de que a maior parte dos jovens que estuda teologia sabe mais sobre a interpretação dos autores reformados sobre o texto bíblico do que sobre o próprio contexto em que as Escrituras foram escritas. Acho que isso é uma contradição com o próprio legado da Reforma, que era exatamente tornar possível que as pessoas lessem a Bíblia e a entendessem, buscando conhecer mais o seu contexto original por meio do método histórico-gramatical. Hoje, por exemplo, temos várias descobertas arqueológicas e evidências históricas que contradizem a visão que os reformadores tinham sobre o Judaísmo no tempo de Jesus. Algumas visões de Lutero, por exemplo, eram claramente influenciadas pelo antissemitismo de sua época. Ainda assim, há muita gente que rejeita essas novas informações só porque elas diferem do que pensavam esses teólogos. Considero isso muito problemático.


5. Quais são as soluções que você daria para essas dificuldades?


Eu diria que a promoção do “semitismo”, ou “pensamento hebraico”. As Escrituras não foram reveladas por Deus em um vácuo histórico e cultural. Pelo contrário. Deus escolheu a nação de Israel para carregar sua revelação à humanidade. Logo, acredito que os cristãos precisam retornar às raízes judaicas da nossa fé. Isso não significa adotar costumes judaicos em nossas liturgias, como alguns neopentecostais fazem. Pelo contrário, é reconhecer que formos enxertados na aliança feita com Israel, como Paulo afirma em Romanos 11, entendendo que nós gentios não substituímos os judeus no plano de Deus, mas sim que somos co-herdeiros espirituais das mesmas bênçãos. Jesus é um homem judeu e que viveu de acordo com o Judaísmo do seu tempo. Então, precisamos buscar estudar e aprender mais sobre essa parte de essencial da sua humanidade. Eu e o Philos Brasil estamos buscando fazer isso por meio da tradução de artigos do site Bibical Mind, uma iniciativa do Center For Hebraic Thought, da King’s College (Nova York) que busca reunir pastores, rabinos, acadêmicos e pessoas comuns para pensar sobre a importância dos ensinos do Antigo Testamento para lidarmos com os dilemas da vida contemporânea.


6. Existem leituras externas à Bíblia que te ajudaram, te marcaram em sua trajetória e que você poderia recomendar?


Sim, tenho sido muito influenciado por autores da chamada teologia pós-supersessionista, que são teólogos de diferentes tradições cristãs – inclusive reformados – que entendem que Deus ainda mantém a sua aliança com o povo judeu e rejeitam alguns estereótipos antissemitas e anti-judaicos que foram incorporados ao Cristianismo ao longo da História. Nesse sentido, Gerald McDermott, com seu livro “A Importância de Israel” me marcou muito. Mas também recomendo nomes como Darrell L. Bock, Michael Vlach, Willie J. Jennings, Christopher Zoccali, Mark Kinzer. Além deles, tenho me beneficiado muito de autores judeus que se dedicam a estudar o Novo Testamento, ainda que não concorde totalmente com eles pelo fato de crer que Jesus é o messias. Destaco Mark D. Nanos, Amy-Jill Levine e Paula Fredriksen.


Siga Igor Sabino no Instagram, Twitter e adquira o seu livro "Por amor aos Patriarcas".

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