Eu e a Bíblia com André Reinke


Olá, leitores! Hoje vamos continuar a nossa série de entrevistas com um convidado incrível: André Daniel Reinke.


André é formado em Desenho Industrial (UFSM), História (UFRGS). Ele também é mestre em Teologia pela Faculdades EST e atualmente cursa o doutorado em Teologia pela mesma instituição.


André é professor de cursos livres de História do Cristianismo, Panorama do Antigo Testamento e do Novo Testamento. É autor dos livros Os Outros da Bíblia e Aqueles da Bíblia (Thomas Nelson Brasil) e do Atlas Bíblico Ilustrado da Ed. Hagnos.


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1. Como se deu o seu encontro com Cristo?


Eu sou de família batista, provavelmente já a quarta ou quinta geração. Nasci e vivi na igreja batista. A conversão foi o processo natural, aos 9 anos de idade, em um acampamento de adolescentes, em pregação do falecido Pr. Paulo Solonca. Foi quando eu entendi que precisava de uma decisão pessoal ao lado de Cristo, o que tem me acompanhado desde então.


2. Como se deu sua relação com a Bíblia no início da sua caminhada cristã?


A relação com a Bíblia foi sempre muito próxima. Meu pai era pastor, embora não de ofício (ele trabalhava como secretário executivo da Convenção Batista Pioneira, de tradição alemã). Cresci em uma igreja (em Ijuí, RS) com Escola Bíblica Dominical muito forte, onde aprendi a decorar versículos antes mesmo de ter sido alfabetizado. Lembro de que, quando estava firme na leitura, ganhei como presente de aniversário a minha primeira Bíblia. Isso foi aos 8 anos de idade. E não era uma Bíblia infantil, era a velha tradução Almeida. Foi bom, porque me acostumei com uma linguagem mais pesada desde o início das minhas leituras.


3. O que te levou a querer estudar as Escrituras?


Todo o ambiente da minha infância e adolescência respirava Bíblia e estudo bíblico. EBD na igreja, reuniões de adolescentes, de jovens. Meu pai tinha uma biblioteca razoável, e eu gostava muito de fuçar em seus livros. Tenho comigo até hoje uma edição de 1963 do Manual Bíblico de Henry Halley. A obra tem muitas referências à história e arqueologia; devorei o livro em todos os sentidos. Virou cabeceira de estudos bíblicos, junto com Bíblias comentadas, como a Bíblia Vida, e principalmente o Comentário do Novo Testamento versículo a versículo do Champlin. Na escola, eu tinha verdadeiro fascínio pela história antiga. Então foi um paralelo natural: a Bíblia como texto da Antiguidade, e a história na escola. Esse casamento foi muito natural e direto para mim. Não separava os assuntos; desde a adolescência, um e outro sempre foram intimamente ligados.


4. Quais são as dificuldades que você enxerga ao tratar da leitura e estudo da Bíblia na igreja?


Acho que o maior problema está no fato de se entender a Bíblia como uma unidade plenamente coerente e autoexplicativa. Temos a necessidade de reafirmar isso desde os ataques do liberalismo teológico do século XVIII e XIX. A reação a tais ataques produziu algumas doutrinas que colocaram seus moirões em torno da leitura e interpretação do texto. Isso levou a dois problemas fundamentais: A) Não percebemos que essa pretensa unidade não é dada pelo texto em si, mas pela teologia sistemática, produto do nosso tempo, que é aplicada sobre a totalidade desse texto. B) Por outro lado, resulta no simplismo de que basta ao crente ter nas mãos a Bíblia e o Espírito Santo para ter o conhecimento pleno da verdade – não apenas da salvação, mas do funcionamento do universo. Em resumo: esses dois pensamentos resultam em fundamentalismo.


5. Quais são as soluções que você daria para essas dificuldades?


Tratar da Bíblia com mais verdade e menos idealismo. Ela nos apresenta o caminho da salvação, é Palavra de Deus. Entretanto, como Calvino dizia, ela é o “balbuciar de Deus conosco”, escrita a quatro mãos: divinas somadas às de homens inspirados. Há contexto, há linguagem, nasce imersa no rio de pensamento de um tempo perdido, o qual precisa ser decifrado, discutido, analisado. Não é um livro científico escrito para as pretensões positivistas do século XXI; isso seria nos tornar o ápice da humanidade e destinatários exclusivos desse texto. Tampouco a Bíblia tem essa unidade que pretendemos. Há uma imensa pluralidade – que é, na verdade, a sua riqueza, por vezes capada em seu potencial criador pelas nossas sistematizações. Por isso, acho a teologia bíblica mais produtiva, que leva em conta ritmos e focos distintos. Deixemos a importante sistemática para o que devemos crer enquanto comunidade de fé; permitamos o texto falar mais livremente, para que nós também possamos respirar com mais alívio.


6. Existem leituras externas à Bíblia que te ajudaram, te marcaram em sua trajetória e que você poderia recomendar?


Difícil falar de um livro. Foram muitos, cada um em momentos diferentes da minha jornada espiritual e intelectual. Na adolescência, provavelmente o Fator Melquisedeque (Don Richardson). Como professor de panoramas bíblicos, penso que o Teologia do Antigo Testamento (Walter Kaiser Jr.) e Teologia do Novo Testamento (George Ladd) são boas bases. Teólogos da história sempre me fascinaram, especialmente as obras de Oscar Cullmann (Cristologia do Novo Testamento é sensacional, além de Cristo e o Tempo). As obras teológicas de Jacques Ellul ajudam a quebrar um pouco a rotina muito “reta” das sistemáticas. As obras de Walter Brueggemann (especialmente Teologia do Antigo Testamento e Imaginação Profética) são incríveis para compreender a questão da pluralidade do testemunho bíblico. Os últimos autores a me provocarem coceira no cérebro foram N. T. Wright e John Walton. Enfim, chega a ser uma injustiça citar estes nomes, deixando de fora uma legião de grandes pesquisadores que nossa fé produziu.


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