Eu e a Bíblia com Ana Felício


Hoje continuaremos com a nossa série de entrevistas sobre a relação do cristão com a Bíblia. A convidada de hoje é Ana Felício.


Ana é doutoranda em linguística e estudos clássicos pela Universidade Estadual de Campinas, Brasil. Minha pesquisa é sobre as emoções e os estudos do self na filosofia e drama de Sêneca.


Integrante do Projeto Agostinhas, um projeto que busca discutir o racismo sob a luz do Evangelho. Faz parte do grupo de Letras da ABC² recém fundado, bem como do grupo local de Campinas. Coordernadora do Projeto Day to Day que é um projeto de devocionais da minha igreja local Comunidade Raphá, com blog no Medium.


1. Como se deu o seu encontro com Cristo?


Nasci em uma família cristã. Cresci na igreja e no meio de ensinamentos da Bíblia e princípios cristãos. Lembro que na minha infância eu amava ir à igreja. Mesmo que eu via que minha mãe orava e adorava a Deus todas as tardes e tenho lembranças do meu pai fazer isso também em alguns momentos, meus pais não me ensinaram a ter um relacionamento com Deus, nem na igreja recebia esse ensinamento. Porém eu lia a Bíblia de vez em quando e, quando era pequena eu e meu pai orávamos antes de dormir para que Deus guardasse meus sonhos e minha noite, era também uma oração de agradecimento. Quando cresci não perdi esse hábito, então mesmo sozinha eu fazia essa oração antes de dormir, porém meu relacionamento com Deus se limitava a orar nesses momentos (antes de comer também) e quando eu precisava de alguma coisa. Por exemplo orava antes da prova, para que o Espírito Santo me lembrasse tudo o que tinha estudado e para que me acalmasse, orava quando estava pra baixo ou brava, ou mesmo quando à noite algum sonho ou medo me assustava e não me deixava dormir.


Devido à situação da minha família ter se complicado na minha adolescência eu comecei a ter muitas dúvidas a respeito de Deus. Parecia que vivia uma barganha com Deus e eu me perguntava o que isso diferia das outras religiões, porém eu tinha bastante medo do diabo, e a igreja era sempre um lugar de onde eu saia me sentindo melhor então eu não parei de ir. Aos 18 anos eu tinha quase decidido não acreditar mais, de fato não acreditava, mas eu ainda buscava saber o que era real e verdadeiro.


Quando voltamos para o Brasil eu estava nessa busca, estava bem apática nos sentimento e em relação a Deus. Desde o primeiro culto que entrei numa igreja batista da minha tia-avó eu senti algo diferente, de fato eu estava diante de muitas incertezas na vida, e só tinha Deus, mas não conhecia Deus. Depois que mudamos para São Paulo em pouco tempo fomos na Comunidade Raphá e lá eu lembro de me fazer muitas perguntas, porque era uma igreja diferente do que eu conhecia. O pastor não pregava de terno, as músicas eram estranhas “que o leão ruja, não quero ser domado”. Eu cantava me perguntando se aquilo era de Deus, porque “não ser domado” me parecia uma coisa pouco cristã, mas algo estava atraindo meu coração. O pastor pregou e não lembro do que ele pregou, mas eu só pensava: “tudo o que sai da boca desse homem é verdade, como pode ser?” e era a verdade que eu estava buscando, algo real. Aí eu lembro que pensei também: “não importa o que esse pastor falar, no final do culto não vou lá na frente pedir oração”, porque eu conhecia bem a estrutura religiosa de um culto e imaginei que no final ele fosse fazer um apelo. Ai ele fez, e eu demorei muito mas fui. E quando fui lembro que a oração dele por mim foi tudo o que eu precisava ouvir naquele momento, eu me entreguei totalmente.


A partir daquele momento eu comecei a ir na Comunidade Raphá e me abrir com as pessoas e ser discipulada, e logo terminei um namoro com o namorado que havia deixado na Itália. A minha caminhada íntima com Deus começou nesses dias e eu fui desconstruída de muita religião falsa e enganos, e meu entendimento e minha fé foram renovados. Também eu comecei a viver muitas experiências com Deus seja na igreja, seja no meu momento íntimo com Deus e isso foi muito novo na minha caminhada cristã.


2. Como se deu sua relação com a Bíblia no início da sua caminhada cristã?


Desde que tive esse encontro comecei a ter uma vida devocional imediatamente, pois é algo que é muito ensinado na minha igreja. Tivemos alguns planos de leitura juntos toda a igreja.. tipo a Bíblia toda em um ano.. ou alguns livros específicos, isso me ajudou muito a criar uma disciplina de leitura e devocional na minha vida. Antes disso, eu lia a Bíblia como se fosse uma caixinha de promessas, lia quando estava triste e buscando algo que pudesse melhorar meu dia ou resolver algum problema.


Quando comecei a ler a Bíblia diariamente, muitas histórias começaram a fazer sentido. De início me apaixonei pelos Salmos e pelo Pentateuco. Gostei muito da sinceridade dos salmistas e conseguia perceber o quanto Deus era justo lendo Êxodo, Levítico ou Deuteronômio... Muitas coisas eu não entendia, ou entendia de maneira completamente equivocada, mas essa leitura sem estudos bíblicos no máximo com notas de rodapé das próprias Bíblias me deu uma noção da narrativa bíblica como um todo. Percebi expressões que se repetiam, características do caráter de Deus.


3. O que te levou a querer estudar as Escrituras?


A minha vida acadêmica foi um grande ponto de início para perceber que eu precisaria estudar a Bíblia de maneira séria. No fim da graduação, estava fazendo minha Iniciação Científica que depois se tornou uma monografia e começava a perceber de maneira ainda incipiente as diversas correntes filosóficas e os vários pressupostos epistemológicos que estavam fundamentando minha pesquisa inicial. Alguns me incomodavam, mas não conseguia nem sequer identificar o que me incomodava.


Desde muito cedo, por algum motivo eu tinha a impressão de que meus estudos seriam para a glória de Deus, de alguma forma isso iria acontecer; então dentro de mim eu me questionava como eu iria glorificar a Deus se eu tinha alguns pressupostos nos meus estudos que me geravam esse “incomodo” porque me pareciam contrários ao conhecimento de Deus. Contudo não fiz nada além de conduzir a minha pesquisa da melhor maneira que eu conseguisse, e comecei a perguntar a amigos cristãos intelectuais. Nessa caminhada algumas poucas conversas pontuais e profundas com alguns amigos me mostraram que eu deveria levar o estudo da Bíblia mais a sério. Esse estudo seria tanto para conhecer melhor minha fé, meus pressupostos e compreender um pouco do mundo ao meu redor. Vídeos, podcasts e livros ajudaram e ajudam muito.


4. Quais são as dificuldades que você enxerga ao tratar da leitura e estudo da Bíblia na igreja?


Percebo que a realidade de muitas pessoas é ler a Bíblia como se fosse uma caixinha de promessas, isso se deve a muitos motivos: em primeiro lugar, a realidade do Brasil é de um analfabetismo funcional generalizado, os brasileiros não têm o hábito de ler, depois talvez possamos pensar no estilo de vida que as pessoas levam; na minha cidade que é São Paulo, as pessoas passam o dia inteiro fora de casa, voltando somente à noite para dormir. Não cresci em contexto de igrejas tradicionais e então na minha realidade eu aprendi que tinha que ter uma vida devocional constante (e não só orar par obter coisas) com 18 anos, essa pode ser a mentalidade de muitas pessoas.Outras vezes isso não é estimulado também, se falarmos aquilo que diz respeito à simples atividade de leitura da Bíblia, para devoção diária e sem um estudo específico.


Acerca do estudo da Bíblia, o problema é um pouco mais profundo ao meu ver, cresci em uma realidade neopentecostal, e hoje faço parte de uma realidade carismática que herda algumas coisas do neopentecostalismo e outras do pentecostalismo clássico. Na minha realidade é comum que se incentive as pessoas a terem um relacionamento íntimo e diário com Deus, mas a palavra “teologia” parece ser quase um palavrão. Existe um preconceito que eu também tinha, baseado na ideia de que a teologia é uma discussão infinita de preceitos pouco práticos para a vida do dia a dia e por isso não é algo que nos faz bem. Mas hoje entendo que isso é, no mínimo, uma abordagem imatura e equivocada com o conhecimento em geral, não somente com o conhecimento teológico. Por isso, em muitas realidades parecidas com a minha, o estudo da Bíblia não é incentivado da mesma maneira que a leitura devocional e pessoal.


Por outro lado, quando me aproximei dos estudos bíblicos e teológicos (sou somente uma amadora e curiosa) o preconceito com minha realidade de igreja foi e é bem forte, então parece que é um ambiente em que quem ouve um determinado tipo de música ou tem uma linguagem crentês específica não é bem-vindo, na realidade é muitas vezes menosprezado e diminuído. Confesso que foi isso que me afastou dos estudos bíblicos por muito tempo. Na faculdade eu participei de muitos grupos cristãos e alguns deles focavam mais nos estudos bíblicos do que numa reunião de oração por exemplo, eram constantes piadas desnecessárias com outras realidades evangelicais que me deixavam bem incomodada e eu pensava: “Se é para estudar a Bíblia e ser assim, nem quero”.


Hoje entendo que não há desculpas para não estudar a Bíblia para uma pessoa jovem e provida de celular, internet e tecnologias... Entendo também que o problema do conhecimento em geral é o ego humano e não o conhecimento em si, o conhecimento ensoberbece, qualquer que ele seja, então no começo dos meus estudos eu tive um encontro com a arrogância dos teólogos e não com a verdadeira teologia. Superada essa barreira, eu me aprofundei, mesmo que algumas situações não mudaram, mas me aprofundei porque a sede de entender mais a Bíblia é maior do que preconceitos espalhados por aí. Mas essa foi uma caminhada um pouco solitária, por não ter algo parecido na realidade carismática de que fazia parte e por não me identificar 100% com os cabeções da teologia que me ensinam tanto.


Às vezes há uma dificuldade na comunicação, algumas pessoas não entendem que algumas atividades da igreja são para o crescimento delas e não mais uma atividade para participar. Então parece que há uma falha de comunicação entre as partes.


5. Quais são as soluções que você daria para essas dificuldades?


A igreja com certeza, assim como tem grupos pequenos, encontros de imersão em alguns assuntos, poderia promover o mesmo relacionado às escrituras. Acredito que a realidade online permite fazer muito mais do que antes em relação aos estudos bíblicos e teológicos. É possível criar grupos de leitura, para ler a Bíblia toda em um ano... Quando eu fiz essa leitura pela primeira vez, a gente pegava uma tabela impressa na igreja com as leituras de cada mês, e todos os meses a gente levava essas tabelas para casa e lia, colorindo as partes que já havíamos lido. Isso parece pré-história sendo que somente alguns anos depois temos aplicativos que facilitam todos esse trabalho para nós. Mas o fator humano é fundamental, não é suficiente dizer: “Leia a Bíblia toda, tem até aplicativo”, é possível criar grupos para ter trocas de experiências e um incentivar o outro, isso faz toda a diferença. Sobre o estudo bíblico, acredito que começar com bons livros é uma ótima iniciação. Ler livros que façam entender que preciosidade há nos estudos bíblicos e teológicos, livros que mostram o quanto um estudo é valioso para a vida da pessoa.


Finalmente, com certeza, organizar seminários locais, jornadas de imersão, é uma opção. Minha única sugestão é que a linguagem dos palestrantes seja fácil para que esses encontros sejam proveitosos para o maior número de pessoas possíveis, não só para os nerdzinhos da igreja.


6. Existem leituras externas à Bíblia que te ajudaram, te marcaram em sua trajetória e que você poderia recomendar?


Com certeza! O livro Paixão pela verdade de Alister McGrath me ajudou muito a entender o papel real da teologia, ele diz em certo ponto “A teologia é serva da igreja”... Indico também o livro Reading While Black de Esau McCaulley, que vai sair em breve em português pela Mundo Cristão, é um livro que fala da questão racial nos EUA e uma interpretação bíblica sobre diversas passagens que foram usadas ou ainda são para justificar ideias racistas e até mesmo a escravidão. Esse livro mostra de maneira muito tangível como os estudos bíblicos são fundamentais para a vida da igreja e para os problemas contemporâneos da nossa sociedade. Por fim, o livro Disciplinas Espirituais de Richard Foster tem uma exposição muito bem feita sobre o estudo como disciplina espiritual, é um entendimento que pode revolucionar a vida de alguns que contrapõem as coisas “espirituais” às “materiais” ou vivem em tipos parecidos de dualismo.



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