Deus e a pandemia: uma resenha


Desde o ano passado, estamos enclausurados em nossas casas por causa da pandemia de Covid-19. Estamos reajustando nossas vidas, rotinas de trabalho e estudo, nossa vida eclesiástica e como cristãos indagamos onde Deus está em tudo isso. Vemos milhares de mortes todo dia, pessoas famosas falecendo, amigos e parentes indo embora e nos perguntamos onde Deus está em tudo isso.


Diante da situação, vários teólogos e biblistas se dispuseram a escrever sobre o lugar do Deus cristão na pandemia. John Piper escreveu “Coronavírus e Cristo” pela Ed. Fiel, trazendo uma perspectiva calvinista clássica à questão. Walter Brueggemann, especialista em Antigo Testamento escreveu “Virus as a Summons to Faith: Biblical Reflections in a Time of Loss, Grief, and Uncertainty”, trazendo reflexões baseadas em textos da Bíblia Hebraica sobre os tempos em que vivemos.


N.T. Wright, um especialista em Novo Testamento e um autor bem conhecido pelo público brasileiro também escreveu sobre. Em um artigo para a revista Time afirmando que o Cristianismo não precisa oferecer uma resposta para a pandemia. Ele escreveu sobre lamento, sobre não ter respostas. E a partir disso, foi convidado a escrever um livro "Deus e a pandemia" que foi lançado em português pela editora Thomas Nelson Brasil.


Wright inicia o livro confrontando as nossas perspectivas a respeito da pandemia. Diante do pânico, os cristãos tentam dar várias respostas. Nosso autor elenca algumas, remetendo às escolas gregas: platônicos, epicureus e estoicos. Os platônicos querem algo além da vida, os epicureus acham que o que importa é o conforto e os estoicos acham que tudo está determinado. A questão que surge é: qual é a resposta cristã? De imediato, ele já descartou qualquer conspiração ou ideia de que nós podemos prever o que Deus quer.


O que N.T. Wright quer ensinar ao leitor a ler a Bíblia. Não tem muitas sistematizações aqui, nem grandes respostas. Para ele, não existe uma resposta. A pergunta a ser feita deve ser mudada com foco em saber o que devemos fazer. A partir desse princípio, ele vai passear por toda a Escritura para ensinar sobre sofrimento, o mal e o lugar de Deus nas tragédias que presenciamos.


Ao tratar do Antigo Testamento, passeamos por vários salmos e pela tradição profética. Wright nos faz pensar nas tensões que o texto bíblico nos apresenta ao falar da justiça retributiva. Lemos Deuteronômio, os profetas, a história de Israel e percebemos que os atos do povo de Deus tinham consequências: bênção ou maldição. Mas será que é isso mesmo? Ao apresentar a história de Jó, o autor demonstra que as coisas são mais complexas. Não tem como dar uma resposta simples para tudo.


Ao tratar do Novo Testamento, temos dois capítulos: um sobre Jesus e o outro sobre os demais escritos do Novo Testamento. No primeiro, o foco está em mostrar como Jesus redefine o conceito de poder e autoridade. Como entender a soberania de Deus agora? Olhe para Jesus. No segundo, o foco está em como a igreja entende o papel de Jesus e a nova criação. Wright mostra como a igreja é chamada a participar da missão de Jesus e ser para o mundo o que Jesus foi para Israel. Respostas cristãs? A igreja do primeiro século não se preocupava em dar resposta às calamidades. Ela agia!


Finalizando sua argumentação, Tom Wright ensina que precisamos ter uma postura de humildade sobre a pandemia. Talvez não tenhamos as respostas corretas, talvez não tenhamos respostas. O que precisamos como igreja é agir, cuidar dos perdidos, lembrar que Deus não está alheio ao nosso sofrimento. Precisamos lembrar que somos chamados por Jesus para sermos parte da sua obra de redenção do mundo inteiro.


O livro não é perfeito. Ele é curto e o autor não deixa algumas coisas claras. Para quem tem uma visão mais calvinista, estranhamentos surgirão quando Wright tocar em assuntos sobre soberania e providência. Algumas interpretações do autor sobre alguns textos bíblicos do Novo Testamento são bastante inéditas, fora do nosso habitual. Contudo, vale a leitura. N.T. Wright nos ensina a pensar, entender nossa Bíblia e não usá-la para nossos próprios interesses nem para dar respostas simplistas à situação.



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